Jl – Jornal de Londrina – 20/12/2010

 

O despertar de Mikael

Alunos do projeto Identidades e Culturas Juvenis, da UEL, mostram como a música pode ser um elemento de transformação

20/12/2010 | 00:00

Bagunça. É o que algumas crianças e adolescentes gostam mesmo de fazer na escola. O ambiente, muitas vezes, é propício, principalmente num colégio público estigmatizado pela realidade de violência no entorno, no interior. As notas, quase todas vermelhas. Antes, respeito era uma palavra fora do vocabulário. Mas então surgiu a oportunidade de tocar violão. A pequena caixa acústica de madeira trouxe perspectivas novas, diferentes, e devolveu as notas azuis a Mikael Julho Silva Leandro, de 11 anos, do Colégio Estadual Ana Molina Garcia, na Vila Ricardo, zona leste de Londrina.

Mikael entrou na aula de violão no início do ano, quando começaram as oficinas musicais práticas do projeto Identidades e Culturas Juvenis, desenvolvido pelo departamento de Música da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no colégio.
Eu era um pouco bagunceiro”, revela o estudante, um pouco tímido na entrevista. Mas durante o ano, as coisas foram mudando. Mikael, que tinha dificuldades na aula de ciências, passou a prestar mais atenção ao que os professores ensinavam. “Antes eu tinha muitas notas vermelhas, agora tiro tudo azul”, conta.

Neste ano, mais de 500 pessoas participaram das oficinas. Gente também do bairro, marcado pela violência. “Estamos numa região de risco, com alunos carentes e perfil de região violenta”, afirma o diretor auxiliar do colégio, Jorgisnei Ferreira de Rezende. Realidade que está começando a ser mudada, embora ainda tenha um longo caminho pela frente. “Já mudou o comportamento dos alunos. As crianças se aproximam mais do que se espera da presença de um aluno na escola em relação ao respeito e à socialização”, aponta o diretor.

Em todos os sábados pela manhã são ofertadas aulas de violino, violão, teclado, percussão, cavaquinho, desenho e teatro. O projeto é financiado pelo programa Universidade Sem Fronteiras, da Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia (Seti). Os instrumentos musicais são emprestados pela universidade. Entretanto, as crianças se encantam pelo projeto e resolvem adquirir os próprios instrumentos. É o caso da estudante Kellsy Regina Rosa Cardoso, de 11 anos. De olhar desconfiado, ela revela que se apaixonou mesmo foi pela flauta.
Minha mãe começou a trabalhar no Clube das Mulheres [local onde também são ministradas as oficinas] e disse para eu fazer aula de teclado. Mas eu fui lá no dia que estava tendo flauta e gostei”, lembra. Para treinar em casa, pediu que o pai comprasse o instrumento. “Ele também gostou e comprou.” No repertório, as músicas Parabéns, Noite Feliz e Jingle Bells.

Alguns estudantes do projeto chegaram até a compor letras interpretadas pelos monitores, alunos ou professores do departamento de música da UEL. O resultado todo foi apresentado na semana passada, em um grande espetáculo cênico musical no Teatro Ouro Verde.

Serviço:
quem quiser ajudar o projeto pode ligar para o telefone 3325-2355. Outras informações e outros projetos pelo site www.sentinelas.org.br.